quarta-feira, 30 de junho de 2010

Embriaguem-se

"É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher."

Charles Baudelaire

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Eis meus gestos, eis minha essência

"Ce ne sont pas mes gestes que j'escris; c'est moi, c'est mon essence. Voilà mes gestes, voilà mon essence."
Montaigne

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Olhos de ressaca

"Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento, imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me."
Dom Casmurro- Machado de Assis

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Dias

"Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada."
Dom Casmurro- Machado de Assis

domingo, 6 de junho de 2010

Petite Reflexion

Vomir.
J’ai envie de tout vomir. Tout. Cette forme qui m’empêche de respirer, cette boule qui m’empêche de parler, cette peur qui m’empêche de crier.

Peur.
J’ai peur de tout. De tous. Ces yeux qui se refusent à pleurer, ces lèvres qui ne font que sourire, ces mots qui disent que tout va bien.
Mourir. Crever. Périr. Disparaitre. Une fin inévitable, trop loin ou trop proche, on ne peut la juger.

Toi.
Oui, toi. Tu te dis « ah ce qu’elle peut parler de moi »
Egoïste ignorant. Ce n’est pas toi. C’est nous. C’est eux.
Eux avec leurs yeux. Eux avec leurs voix. Eux qui nous regardent.
Ils ne font que ca. Ils ne savent faire que ca.
Egoïste arrogant. Ce n’est pas eux. C’est nous. C’est toi.
Que tu peux être stupide ! Non, pas stupide, humain.

Tueur.
Toujours tuer ou être tuer. Faire mal ou avoir mal. Embrasser ou empoisonner.
Que choisir ?
Egoïste aveugle. Ce n’est pas toi. C’est nous. C’est Elle.
Elle qui nous dit. Elle qui nous dicte. Elle qui choisit.

Fin.
Finir. Commencer. S’arrêter. Hésiter. Recommencer. Finir.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Inescrupuloso

Hoje refleti sobre algo que há muito tempo vem me incomodando. Não entendo o que leva uma pessoa a querer mostrar ser o que claramente não é. Parece que o preço para ascensão social anda subindo afinal, mas a teia de mentiras que cada um está tecendo sobre si mesmo um dia os sufocará. Eis o preço: desonestidade em troca de status.
Estou farta da necessidade que todos tem de aparentar ter dinheiro. Ninguém mais quer crescer economicamente para adquirir qualidade de vida, ninguém pensa em poder um dia ajudar as pessoas que precisam. É aquela velha história de entrar na high society. Fútil. Fora isso existem, aqueles que querem se encaixar em algum padrão, ou em nenhuma para poderem sair por aí dizendo "sou diferente". Qual é o problema em ser você mesmo sem precisar inventar características ou estar a todo momento tentando deixar alguma evidente?
Mídia, valores, padrões. Há quem se mate para ter o corpo da revista, o carro do ano, a roupa da moda, a melhor festa, e blablabla. As pessoas estão se afogando em dívidas; comprando, comprando e comprando pra se sentirem melhor.  Não importa se você precisa daquilo ou não, afinal a idéia é apenas criar uma espécie de vitrine. Ridículo e desnecessário.
Ship Anchor